Eu gosto muito de ler, nos comentários das notícias sobre os médicos, as pessoas falando sobre como eles atendem mal. Entre essas pessoas, com certeza, está aquele motorista de ônibus e aquele cobrador que não respondem quando eu cumprimento. Com certeza, entre eles, tá o atendente de caixa que não responde ao meu bom dia, que ignora meu obrigado. Entre eles, eu garanto, tá o carteiro que bate na porta da minha casa com raiva, o garçom que me olha por cima, a faxineira que me olha como se eu fosse o culpado de ela ter aquela profissão, o policial que anda com o peito estufado e fala grosso por ter um revólver na cintura. Todos eles me atendem com a pior vontade e sensibilidade possível, mas nem por isso eu os quero mal, afinal o único motivo de eles trabalharem é, eu aposto, o salário. O que me irrita, então, é que quando um médico os trata da mesma maneira que eles tratam todos, todos os dias, eles vociferam como se os eles fossem uma classe de mercenários exploradores sem educação, interesseiros, que só querem saber de dinheiro, e ignoram que eles fazem o mesmo, da mesma maneira, e pelos mesmos motivos.
Quero
começar meu texto hoje dizendo que o que a Dilma sente pela classe médica é a
mesma coisa que uma certa comunista brasileira sente pela classe média.
Vocês ainda vão me ouvir falar muito dela.
Hoje nós vimos, em pronunciamento, uma Dilma Rousseff mais cabisbaixa, gaguejante e hesitante, lendo um discurso redundante - me deixa até curioso se foi produzido por seus marqueteiros, como o outro foi. Suas palavras basicamente reiteraram o pronunciamento anterior, falando sobre transporte, educação, saúde e reforma política, só que dessa vez de forma mais branda, sem contar que ela falou como se não estivesse há dez anos participando do governo e tudo aquilo fosse novidade.
A parte de tudo isso que mais chamou atenção foi, provavelmente, a última. Como o Rodrigo Constantino disse hoje, o que o Brasil precisa é de uma mudança gradual pra solidificar as bases democráticas. O desejo de Dilma vai de encontro a isso, o que deixou gente respeitável com medo, com argumentos convincentes. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ainda ontem tocou no assunto, falando sobre a dificuldade de reformas políticas no seu governo, que nunca eram aprovadas, e disse que a única parte do país que possui uma oposição ativa é o Congresso Nacional que, como disse o Reinaldo Azevedo, vai ser justamente a parte contornada por essa reforma. Além disso, Luís Roberto Barroso deixa bem claro que nenhuma ideia posta em debate no Brasil precisa de uma constituinte - quem dirá exclusiva!
Sorte nossa que um representante eleito nunca fez mal a ninguém.
Eu mesmo já escrevi sobre como eu achava que voltaríamos ao lugar que começamos, mas tou achando que me enganei. O apartidarismo e a suposta ausência de lideranças desse movimento político, antes tratados como positivos mas agora vistos com receio, estão se mostrando cada vez mais nocivos e essa entidade efêmera está nos trazendo discursos mais radicais que buscam acalmar a fera.
Claro que isso nunca deu errado antes.
Quanto ao que Dilma falou sobre saúde e educação, já falei sobre isso, inclusive sobre a importação de profissionais, e fico surpreso que diante de má recepção nacional desta última proposta ela tenha vindo falar novamente sobre o assunto. Sobre o transporte, o governo quer investir em meios de transportes falidos, ao invés de adotar a ideia de Randal O'Toole, por exemplo, de tirar as pessoas dos trilhos e tirar o frete das ruas, por que o transporte rodoviário é muito mais confortável e versátil e o frete ferroviário, mais barato e eficiente.
O pronunciamento da presidente me deixa com medo. Medo de outra Constituição, medo de perder minha liberdade, medo de ver esse movimento louvável se tornando na maior junção de idiotas úteis de todas. Meu maior medo é, em suma, que a presidente Dilma Rousseff governe um país parecido ao que ela lutava para mudar na década de 70. Será que a Dilma de 1985 se orgulharia de Dilma de 2013?
Pois bem, hoje vou tratar de um assunto diferente:
Filosofia. Antes que vocês reclamem, não é a filosofia de colégio, não, essa é
a Filosofia com letra maiúscula, que tem barba, e já dirige. E o melhor de
tudo, pode ser usada para analisar a História (E é por isso que temos Filosofia Histórica na faculdade!).
Vamos começar com um exercício mental, que é basicamente o
único tipo de exercício que os filósofos fazem (por isso eles têm barbões e barrigonas).
Digamos que eu tenha um carro. Ele é bem velho, uma Brasília.
Mais velha que a ditadura, e tão confiável quanto.
Um dia, ela quebra. O motor fundiu, ou eu sei lá. Vou e
troco todo o motor. Um tempo depois, furo um pneu. E outro. Acabo furando
todos, depois de uns anos. Troco tudo, claro.
Até hoje ela me faz chorar, feito a ditadura.
Após um bom tempo, eu já troquei todas as peças dela. Mas eu
ainda a chamo de “Minha Brasília”. Oras, ela é mesmo? Todas as partes dela são
diferentes, mas eu fiz questão de serem todas originais, da mesma cor e modelo,
então ela aparenta ser exatamente como era antes, mas nenhuma peça original continua ali.
Ela é uma grande mentira, feito a ditadura.
Esse é um dos grandes dilemas na Filosofia, sendo debatido
desde a Grécia Antiga. Claro, os barbudos da época não falavam de carros, mas
do barco de um tal de Teseu. Mas o problema é o mesmo: O que faz algo ser, bem,
aquela coisa?
O seu corpo renova todas as células dele em alguns anos. Então,
se as partes formam a identidade do todo, você tem, no máximo, 10 anos. Mas
claro que você se lembra da sua infância, a primeira (e como você está lendo um
texto sobre Filosofia, a única) namoradinha, a primeira vez que você chamou a
professora de mãe sem querer (um ponto importante na formação de qualquer
indivíduo saudável), enfim, fatos que aconteceram há mais tempo que dez anos.
E temos ainda o envelhecimento natural, o teu corpo não
permanece o mesmo para sempre. Você cresce, ganha barba, perde cabelo, a pele
fica flácida... Mas não é isso que define você, exatamente. A psique, o
conjunto de seus maneirismos, lembranças, personalidade, isso é quem torna você
reconhecível, diferente dos demais. É assim que vemos aquele guri da oitava
série, anos depois, careca e gordo, e conseguimos reconhecê-lo.
Mas como aplicar esse
conceito na História? Bem, só precisamos modificar a escala. Ao invés de
falar sobre células e um corpo, podemos falar em pessoas e uma nação. Será que
a Grécia de hoje é a mesma Grécia da antiguidade? Ou a Itália realmente teve um
passado glorioso, quando era conhecida como Império Romano?
Não vamos começar com isso de novo, né gente.
Isso é algo menos abstrato, portanto mais fácil de ser
discutido. Muitos historiadores (eu incluso) falam da história na primeira
pessoa do plural. Sempre é “Nós não
tínhamos o conceito de individualidade até meados do século XVIII”, e não Eles. Admito que faço isso involuntariamente,
num gesto de aproximar o leitor do passado, e não como opção filosófica, mas é
um bom exemplo de como nós percebemos o passado como uma continuidade, um rio
que vem fluindo até desembocar no presente, mesmo que seja errado usar o nós,
já que ninguém aqui viveu no século XVIII.
Tá, QUASE ninguém.
Mas não só isso, temos também a questão da identidade
nacional. Num país relativamente jovem como o nosso isso não importa muito, mas
em países milenares como o Egito ou a Grécia, é algo de extrema importância.
Porém quanto mais tempo uma nação existe, mais vezes ela é invadida, ocupada,
mesclada, modificada. Se pegássemos um filósofo grego da época de Sócrates e
jogássemos na Grécia atual, ele não reconheceria aquilo como seu país (até
porque gregos não tinham o conceito de país, naquela época).
Ao menos ele já sabe como é ter barba e ficar na praça sem trabalhar o dia todo.
Daí vem o problema: Não podemos deixar essa imagem de
continuidade atrapalhar nossa análise histórica. Um exemplo disso são as
estátuas gregas. Já sabemos que elas não eram realmente brancas, e sim
coloridas, só que elas ficam tão feias, tão diferentes do que nós assumimos que
seria a estética greco-romana, o berço da civilização ocidental, que ‘omitimos’
esse detalhe, preferindo mostrar ao mundo as esculturas brancas e virginais.
César, o Grande (travesti)
Essa revisão da história acontece em vários lugares. Vemos a
Idade Média como um lugar sujo e pobre, sendo que eles consumiam muito mais calorias que nós hoje. Imaginamos os vikings como bárbaros cruéis, mas eles
foram um dos primeiros a criar leis contra o abuso sexual, e a tratar mulheres como pessoas. E isso não é só no imaginário popular, não. Há professores, e até
historiadores, que ainda acreditam nessas versões, comprovadamente falsas, e
ajudando a manter esses mitos vivos na mente da nova geração, perpetuando a
falsa História, e obscurecendo cada vez mais a nossa visão dos fatos.
O
Senador Cristóvam Buarque é historicamente aclamado por falar incessantemente
sobre educação – não mais que um sucessor do nem tão querido Leonel Brizola.
Fala tanto nisso, por sinal, que é conhecido pela supostamente revolucionária
ideia dos 10% do PIB para a educação, além de um ensino mais humano e
socializante nas escolas. Espero aqui poder dar um insight do porquê de eu
discordar inteiramente do nosso senador.
Comecemos
partindo de uma lógica simples: todo o país rico tem uma educação de qualidade,
então é cabível assumir que a educação é o que torna o país rico, certo? Muito pelo
contrário, é a riqueza do país que traz viabilidade à oferta de um sistema educacional
eficiente. Tomemos por exemplo a Coréia.
Não essa Coréia.
O país optou,
primeiro, por um processo de industrialização rápida – com certeza com ajuda de
capital americano, mas não por “interesse estratégico” e sim por possuir um
mercado aberto – e, com a recém-construída indústria, captou recursos
suficientes para um investimento em educação. O mesmo com Singapura. E Hong
Kong. E Macau. Até mesmo o Chile precisou da doutrina dos Chicago Boys de
abertura econômica antes de passar a ter o sistema educacional que, longe de
ideal, ainda é o melhor da América Latina.
Já o Japão tá ficando sem coisas pra inventar.
Não
me vem à mente sequer um país que tenha se desenvolvido de maneira eficiente recentemente
e seguido outro modelo. De maneira muito remota, temos a Escócia, salvo sério
engano meu o primeiro país a adotar um sistema estatal de educação, e ainda
assim quem mais se deu bem com isso foi a nação logo abaixo, a inglesa, que é a
criança descolada da Grã-Bretanha que não estudava pras provas, só colava dos
colegas do lado e ia melhor que eles no final do ano.
Mas
como eu disse em uma postagem anterior, o mais importante não é quanto, mas
como se investe. Uma coisa que muito pouca gente sabe é que o Brasil é um dos
países que mais investe em educação no planeta. Não, não tem piada aqui. A porcentagem
do PIB que o país investe é monstruosa – 5,7% do produto. Se 10% dele fosse
para educação, então, a terra que tem palmeiras onde canta o sabiá seria a
primeira do mundo, à frente dos assombrosos 7,8% investidos na pequena
Islândia. Então cadê o problema, ó Alá?
O sistema educacional palestino sofre hoje uma expansão explosiva.
Vamos
voltar de novo aos nossos pares mais bem-sucedidos. O Reino da Prússia, o pai
da Alemanha, governava sobre uma terra pouco fértil. A única coisa que tinha lá
era gente, e eles resolveram fazer proveito disso. Ainda na primeira metade do
Século XIX, as universidades prussianas decidiram cortar o investimento na
área das ciências Sociais e Humanas e se focarem nas Naturais e Exatas. O
resultado? A nação que começou a se industrializar com cópias de máquinas
inglesas em poucas décadas produzia equipamento mais eficiente e produtivo. O
Japão foi o mesmo caso – em 1900, havia mais equipamento têxtil japonês no
mundo do que de qualquer outro país. Esse é o mesmo país que, em 1945, forçou
estudantes universitários a pilotarem caças contra porta-aviões
norte-americanos – mas não qualquer estudante, senão o estudante da área de
Humanas, que eles reconheciam como menos importante para o desenvolvimento
nacional. Essa foi a única vez que um diploma de História foi útil para uma
nação.
P.S.: Antes que me batam, não, eu não odeio a área das Humanas nem das Sociais, até por que eu mesmo estudo uma social – a Ciência Econômica.
No
Brasil, porém, há historicamente a ideia refletida pelo MEC que se deve criar
cidadãos críticos. Minha opinião é a seguinte: esses cidadãos críticos vão ser
ensinados a “pensar”, a “criticar” por um determinado viés. Isso não seria
problema em uma nação de ensino descentralizado, mas o MEC é conhecido por ser
bastante... canhoto. Mais que isso, se tem a intenção de se ensinar tudo na
escola. E eu digo literalmente tudo: orientação sexual, aulas contra bullying e
racismo, sobre saúde, duplo twist carpado, tudo. Isso é coisa que se aprende em
casa.
A
função da escola é, ao meu ver, nos dar uma série básica de habilidades para
que possamos trabalhar. É a escola que tem que se adaptar ao mercado de
trabalho, e não o contrário. Vejam só: o aluno coreano, que estuda doze, treze
horas por dia, não estuda só por cultura ou pressão. Ele estuda por que aquilo
vai garantir pra ele uma vida longa e próspera.
No
Brasil, não temos que conscientizar a estudar por que isso vai enriquecer as
classes baixas. Não vai. O currículo escolar não vai facilitar a vida da
família deles, pelo contrário. Pra uma família realmente pobre, um filho na
escola não é um “investimento no futuro” – é uma pessoa a menos trabalhando, é
menos comida na mesa, é mais dificuldade, e no final quando ele sair de lá ele
vai terminar nas mesmas condições que os pais iletrados dele, por que ele sabe
quem é Locke e Rousseau mas não sabe nada de matemática financeira e não pode
nem fazer um curso técnico por que Física é algo vindo de outro mundo.
O
que eu quero dizer com tudo isso é que precisamos decidir um foco
com a educação. Não só defendo a descentralização do ensino como uma mudança
curricular que sirva os interesses do mercado de trabalho, não aos interesses
de intelectuais em torres de marfim, que acreditam que sabem como mudar o mundo
mas não conseguiriam um tostão fora da área acadêmica. Uma nação assim está
fadada à pobreza, afinal, queremos seguir o exemplo dos países ricos ou
deixaremos que continuem nos levando a um destino fracassado?
E aqui estou eu com mais um texto falando sobre as
manifestações que ocorrem no nosso lindo país. Sei que todo mundo aqui do
Quiosquê tá falando sobre isso, mas temos um motivo: Foco (e falta de pauta).
Sabemos que isso é o que interessa a maioria de nossos leitores, então falamos
sobre isso, dando nossos pitacos e fazendo nossas análises. Pode ficar um pouco
maçante, afinal não somos só nós falando sobre o tema, mas um foco é
necessário, pois sem ele, qualquer coisa vira uma bagunça.
É isso que falta nessas manifestações: Foco. Todo movimento
social ou político precisa saber claramente o que quer mudar, e como quer essas
mudanças, para que possa reivindicá-las. Pode parecer óbvio, mas muita gente
não entende isso, e a maioria dos manifestantes não sabe muito bem o que quer,
ou como conseguir isso.
Enquanto outros sabem muito bem o que querem na manifestação.
E um foco não pode ser amplo, então “Abaixo a corrupção!”
não serve como objetivo. É algo que já é ilegal, tanto social quando
juridicamente, não é como se um político fosse ver os protestos, os ônibus
queimando, se comover, e parar de desviar dinheiro.
"Não queima esse não, é minha Horcrux!"
Além de uma meta, um objetivo, o movimento precisa definir o melhor método alcançá-los. Assim como
não adianta chegar na porta da minha casa e reclamar do preço do pão, só por eu
ser de família portuguesa, não adianta gritar pra presidenta baixar o preço do ônibus de Americana, ela não é a responsável por cada cidadezinha do Brasil, ou
mesmo responsável pelo judiciário, ela manda só e somente no executivo.
Esse foi nosso último chefe do executivo que também mandava no judiciário, e vocês tiraram ele do poder. Satisfeitos?
Claro, tudo isso demanda tempo, planejamento, discurso e
muita análise, coisa chata e que não é resolvida no grito. Não sou contra
movimentos sociais, pelo contrário, como historiador eles são meu ganha-pão,
mas movimentos sem rumo não trazem nada de bom, e só servem para parar a
produção do país, o que ocasionará mais e mais problemas para o futuro. A
intenção é excelente, precisamos mesmo lutar por melhores condições, mas
precisamos saber o que queremos para que possamos cobrar isso dos nossos políticos.
Quando fui acordado, na minha cela, por pessoas entusiasmadas que gritavam "Acorda, velho! Constantinopla caiu!", eu não fazia a mínima idéia de que, em algum tempo, me uniria a essa trupe que gosta de temperar carne de panela com filosofia. Então, aqui estou. Com meus amiguinhos de culinária e coração. Estudando culinária e devorando o coração dos inimigos mais fracos.
Pra alegria de uns e a náusea de outros, meu primeiro post aborda as marchas que estão ocorrendo em todo o território nacional. Sim, o comportamento da sociedade na mídia é bem previsível, mas assuntos atuais sempre necessitam de dados relevantes. Não quero fazer uma apresentação imparcial dos fatos para informar o leitor, quero esclarecer minha relação com esse caótico movimento e as pessoas que o constituem.
Existe um grande e desconfortável motivo para eu detestar tentar discutir política: a horrenda cabeça fechada que as pessoas mantêm frente ao pensamento lógico e a facilidade com que elas se apegam a frases e ideais bonitinhos sem antes questioná-los. Eu não estou falando de um grupo específico, ou um partido. A situação é muito pior. Tem gente assim pra todo lado.
Você pode lutar pela felicidade de todas as pessoas, você pode lutar pela liberdade de uma pessoa ser quem ela é e fazer o que ela ama, você pode lutar pela atenção que o Estado tem que dar a todas as minorias, porém nada disso parece importar. Estar disposto a criticar O Manifesto Comunista, a Constituição ou a Bíblia (obras igualmente adoradas por grupos ideologicamente diversos) é o suficiente para que você seja execrado por todos. É como se você estivesse no meio de uma briga entre duas pessoas psicóticas que gritam uma com a outra e com você ao mesmo tempo. Fora que, geralmente, você está sozinho. Por isso, quando perceber que não vale a pena o esforço para raciocinar com duas pessoas alucinadas pela fúria, você vai ser taxado de omisso.
Eu queria mesmo era ir pra Marte pra ficar longe dessa praga
chamada ser humano.
O pior disso é que esses fanáticos, esquecendo que todos somos seres humanos originados a partir da mesma fórmula de processos psíquicos e fisiológicos, nem percebem que você está do lado deles, lutando por eles. Os poucos que questionam as condições do tempo e espaço presentes raramente indagam, a respeito disso, o quê fazer, como o fazer e por quê o fazer. A visão que a maioria dessas pessoas têm é tão estreita e rasa, que eu seriamente acharia razoável aposentá-las por invalidez intelectual. Se isso acontecesse, provavelmente grande parte das moradias do país poderia ser convertida em asilos psiquiátricos.
Raciocinar independentemente é o que eu considero a maior virtude de um indivíduo. Mais importante do que perseguir um ideal é poder pensar por si próprio. Enxergar pessoas lutando com tanta paixão por idéias insensatas faz-me lamentar sob o pensamento de que, com mais razão, qualquer problema social seria resolvido facilmente. As pessoas têm desejo de que as coisas mudem pra melhor, porém são incapazes de pensar no que é "melhor".
É nessa confusão, que cresce com crises políticas, em que estamos. Sofrem os que pensam, como de praxe. Uma luta entre dois extremos tão afastados que fica difícil dizer qual é qual. Uma luta em que, se um dos extremos ganha, todos perdem.
As
declarações recentes de Pelé e Ronaldo sobre a Copa das Confederações e a Copa
do Mundo nos deixaram bastante surpresos, dada a coragem de suas palavras em
pleno tempo de manifestações. Sua visão perspicaz dos fatos através de uma
profunda análise metodológica e epistemológica me deixa sinceramente surpreso que eles sejam mais conhecidos como jogadores de futebol do que como
sociólogos.
“A análise das periferias mostra que o desemprego é causado pela falta de carroças de carrapinha” , disseram em palestra.
Piadas à parte, a declaração da presidente Dilma Rousseff nesta sexta-feira nos mostrou que
suas idéias não destoam tanto das de nossos recém-descobertos cientistas
sociais. Começando pelo final, seria engraçado se não fosse trágico a
presidente pedir, basicamente, que nos comportemos por que temos visitas, como
nossos pais pediriam - não que isso me surpreenda, dado que seu antecessor
dizia que seu governo "foi como um pai para os brasileiros". E Dilma age
exatamente como a mãe - conciliadora, supostamente moderada, que sabe dos
problemas que tem em casa, mas quando as visitas chegam ela tira do armário os
copos mais bonitos, do guarda-roupas as fronhas de algodão egípcio e pede que
nós nos comportemos à mesa.
Quero
amalgamar aqui três questões: 100% dos royalties do Pré-Sal para a educação, a
importação de profissionais da saúde e a ampliação dos gastos com saúde e
educação. Pra isso, vou chamar uma autoridade infinitamente maior do que a
minha, o venerável Milton Friedman, economista norte-americano, com sua genial
ideia para educação e saúde: o sistema de vouchers. O voucher é uma
bolsa, um subsídio, mas ele vai pra quem faz uso do serviço, não pra quem
oferece ele. Pro cara da periferia que não pode pagar o hospital, e não pro
hospital, ou ainda pra mulher que quer comprar uma
calça para uma jovem de dezesseis anos, que é mais de trezentos
reais. Ainda vou escrever aqui especificamente sobre educação, mas,
basicamente, o que Milton Friedman entendeu e que a presidente muito bem sabe é
que o governo não tem recursos para manter hospitais, comprar material
hospitalar e ainda pagar os médicos, então o melhor é deixar isso na mão dos
empresários e dar à população condições de pagar o serviço médico propriamente
dito, e o hospital que arque com o resto dos custos.
O mesmo sistema se aplicaria à educação, mas aqui, no
Brasil, é mais delicado. O nosso problema não é quanto se investe, e sim como
se investe. O problema, mais do que o salário dos professores e a condição das
escolas, é o currículo dos alunos. Enquanto nos Tigres Asiáticos ou nos Estados
Unidos o ensino é predominantemente técnico, científico, focado no ensino da
Física e da Matemática, no Brasil se insiste da ideia de se formar cidadãos
críticos – algo tremendamente complexo e delicado. Ainda assim, é isso que o
Ministério da Educação nos oferece. Uma pessoa crítica e consciente é realmente
necessária, mas isso, assim como educação, vem de casa. O MEC insiste que tudo
tem que ser ensinado nas escolas hoje, e acaba que se sai delas sem nenhuma
capacidade útil pro mercado de trabalho. Pra quem tem condições de fazer um
curso superior depois isso não é problema, mas pra maioria é. Tão logo quanto
isso fica claro, acontece a evasão escolar – e não é de se condenar, pois se a
escola não tá adicionando nada à tua vida, não tem por que ficar lá.
Tigres Asiáticos. [Carece de fontes]
Por
último, o jogo de palavras e o jogo de contas de Dilma. Ela falou do aumento
dos gastos com educação e saúde, mas é essencial aqui uma diferenciação: gasto
e investimento são coisas bem diferentes. Gasto é salário, é folha de
pagamento. Investimento é construir escolas, hospitais, pontes, estradas –
investimento é o mais importante. No caso da educação gastar é legal mesmo,
professor ganha mal. No caso da saúde, o mais importante é o investimento.
Antes de faltar médico, falta leito, falta equipamento, falta estrutura, quartos,
falta muita coisa, e um médico sem ferramentas é impotente.
O pronunciamento da presidente
mostra a tendência de sempre, de falar o que a maioria quer ouvir. Minha
intenção é mostrar que nós precisamos tornar o Brasil melhor pra quem vive
aqui, tanto pro educador e médico quanto pra quem tem baixa renda. E é por isso
que não precisa dos médicos estrangeiros: é só dar motivo pros daqui quererem
trabalhar no SUS – afinal, da mesma maneira que um pedreiro não vai pra uma
obra sem cimento e um motorista de caminhão não vai pra uma empresa sem
veículos, um professor não quer trabalhar em uma escola sem giz e um médico não vai para um hospital que sequer tem um
estetoscópio. Mais importante, se ouvirmos a lição de Milton Friedman, nossas crianças não irão à escolas sem utilidade e nossos idosos não chegarão aos hospitais sem vida.
Vocês, leitores, assim como eu, já devem ter visto a
seguinte imagem, no feed do seu
Facebook:
"E é por isso que pão em francês é pain, representando a dor da Revolução [carece de fontes]"
Mas até que ponto isso é verdade? A Revolução Francesa
começou mesmo pelo preço do pão? Ou melhor, há como definir exatamente quando
começa uma revolução? “Sim, quando o povo vai a rua, bradando, com armas!”
alguém irá dizer. Mas isso não seria somente o ápice de toda uma sequência de
problemas, desordens, infelicidades?
Primeiramente, devemos definir o que é uma Revolução. Não é
algo fácil, acreditem, pois todo conceito histórico é amplamente debatido
(visto que é difícil usar uma palavra pra descrever perfeitamente movimentos
sociais franceses, indianos, chineses e congoleses, por exemplo). O conceito
mais aceito é que uma revolução é qualquer agitação social onde um sistema
político é deposto pela massa popular e substituído por outro.
É amplo demais, e tenho certeza que um ou outro historiador
não vai concordar totalmente, mas para o argumento desse texto, vai servir. Agora
podemos voltar a pergunta inicial: Quando começa uma revolução?
No caso da França, os descontentamentos começam bem antes do
preço do pão subir. Em 1787 temos a Assembleia dos Notáveis, uma reunião de
clérigos e nobres, escolhidos pelo Rei, que tentariam achar uma solução para a
crise econômica francesa (que começou com o financiamento da Revolução
Americana, mas isso é assunto pra outra hora). Oras, eles, logicamente, se
recusaram a pagar mais impostos, deixando o pato (ou, devido aos cortes
financeiros, o frango de padaria) nas mãos do terceiro estado, também conhecido
como Le Povón, em francês.
Obviamente essa não foi a única causa do aumento do pão, ou
mesmo da insatisfação popular. Não havia Twitter, ninguém pobre ficou sabendo
dessa Assembleia. Mas foi um fato importante: A própria nobreza recusou a
solução do rei, juntamente com o clero. “Uai,
mas eles não são os rivais, os caras maus da história?” Não, na história
não temos caras maus, uma parte do primeiro e do segundo estado apoiou o povo,
na verdade. Só pararam quando o Trio Calafrio (Robespierre, Danton e Marat)
decidiram cortar a cabeça de todo mundo.
O YouTube do século XVIII
Temos ainda o frio extremo que fez na França, nos anos
anteriores, o fluxo migratório do campo para a cidade (já que eles não tinham o
que colher ou plantar), e a consequente falta de empregos, o que abaixou o
salário médio (se tem muita gente querendo a sua vaga, tu não pode reclamar
quando o patrão abaixa teu salário; melhor ganhar menos do que ganhar nada).
Tudo isso aconteceu antes de 1789, data ‘oficial’ da Revolução Francesa.
Não podemos definir uma data para movimentos ou mudanças
sociais. Na História, nada é tão simples quanto três ou quatro causas, bem
explanadas e sem complicação. Esse é o erro de muita gente, analisar o momento
histórico como se fosse um livro, com começo meio e fim bem definidos e
bonitinhos.
A Revolução Francesa, assim como os manifestos ocorrendo
hoje no Brasil, não começou por causa do preço do pão, ou por vinte centavos.
Se fosse só isso, ninguém iria para a rua reclamar. São causas maiores, muito
maiores, que transcendem o velho discurso marxista de oprimidos contra
opressores. São batalhas de interesses, onde não temos somente classes, rótulos
vazios, mas pessoas, que vão desde pequenos burgueses até o camponês
analfabeto.
Quando estudamos a História, não podemos nos prender a essas
definições. Não há um ‘time do bem’ e um ‘time do mal’, mas sim opiniões
diferentes. Há quem defenda o aumento de vinte centavos, há quem seja contra,
mas nenhum dos dois está certo, pois não há uma verdade, do ponto de vista do
historiador.
A
mitologia grega conta que o titã Atlas, após a Titanomaquia, foi castigado a
carregar sobre os ombros o Firmamento. A mitologia tupiniquim, por sua vez,
fala do titânide classe média que foi condenada a levar nas costas os céus, a
terra, Brasília e esporadicamente balas de borracha. Sua guerra se chama
cotidiano, declarada pela máquina pública, que a ataca com inflação, imposto de
renda e colunas da Marilena Chauí.
Comparações
à parte, os eventos recentes – manifestações, protestos, vandalismo, repressão –
me deixam receoso e é um assunto que é difícil escapar, mesmo sendo uma
primeira postagem. Porém, ao invés de tratar disso, eu quero falar dos vinte
centavos, mesmo sabendo que alguém certamente pensará “Não são mais vinte
centavos! Ignorante! Papagaio do Arnaldo Jabor!” Eu sei que não, mas eu acho
que o desfecho da “conquista” que os manifestantes tiveram em São Paulo dá um
gosto do que há por vir – um sabor de fel.
No
início do movimento Passe Livre o Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, disse
em entrevista de maneira bastante sincera e direta que “não existe almoço
grátis” e que “passe livre é cretinice”. Concordo com ele, ainda que discorde
das palavras usadas, e como ele bem disse, se a tarifa não aumentasse, a
Prefeitura teria que bancar a diferença. Sobre a tarifa, não cabe a mim dizer
se ela é justa ou injusta – isso é juízo de valor, o que não me interessa – mas
o aumento é justificado por apenas compensar a inflação do ano passado, sendo
que mesmo sem dados é cabível assumir que o custo operacional das empresas
tenha subido consideravelmente por causa do aumento expressivo no preço do
diesel. Diante do “não” de Haddad a resposta dos manifestantes foi tentar ganhar
no grito dos argumentos mais que convincentes da Prefeitura porque, claro,
dane-se o Estado de Direito, dane-se o Império da Lei.
A
diferença básica entre o preço da passagem e o de outros bens e serviços é que
ele é tabelado, por isso não flutua e quando ela aumenta é mais fácil dizer “opa!
Inflação”. A vitória sobre a decisão do aumento da tarifa (a vitória da força
sobre a razão, se me perguntarem) foi bastante celebrada e eu tive a impressão
de que os manifestantes, no êxtase “democrático” e da “conquista popular”,
ignoraram a declaração tanto do Prefeito quanto do Governador do Estado de São
Paulo: a tarifa se mantém, mas nós cortaremos o investimento na periferia pra
tapar o buraco no orçamento nas empresas de transporte. Se foi cretinice,
retaliação, revanchismo, isso não importa. Acho que faz sentido. Isso foi,
sim, um tiro no pé. Os paulistas não vão ter que desembolsar (diretamente,
diga-se) o aumento da passagem, mas sim os impostos coletados de gente tão rica
quando o Paulo Maluf e tão humilde quanto o morador da periferia – que teve as melhorias
na sua região cortadas por causa disso.
Isso,
aos meus olhos, é uma prévia do que há por vir. Querem mudar o Brasil de tudo
quanto é jeito, exigem, gritam e esperneiam como uma criança – e um pai que
cede no primeiro grito de seu filho só vai torná-lo mais exigente e teimoso e
vai ser cada vez menos respeitado. Essa história toda nos remete de novo à
estória de Atlas, dessa vez voltando com as maçãs de ouro dos jardins de Hera achando
que enganaria Héracles para ser livre de sua condenação. E logo o nosso
Héracles, o Estado, fará conosco o mesmo
que fez com Atlas: pedirá para seguremos um pouco o céu para que
arrume sua túnica, tomará consigo as maçãs que lutamos para pegar e sairá
correndo, nos deixando onde sempre estivemos.