segunda-feira, 24 de junho de 2013

História Ao Molho Filosófico

Pois bem, hoje vou tratar de um assunto diferente: Filosofia. Antes que vocês reclamem, não é a filosofia de colégio, não, essa é a Filosofia com letra maiúscula, que tem barba, e já dirige. E o melhor de tudo, pode ser usada para analisar a História (E é por isso que temos Filosofia Histórica na faculdade!).

Vamos começar com um exercício mental, que é basicamente o único tipo de exercício que os filósofos fazem (por isso eles têm barbões e barrigonas). Digamos que eu tenha um carro. Ele é bem velho, uma Brasília.

Mais velha que a ditadura, e tão confiável quanto.

Um dia, ela quebra. O motor fundiu, ou eu sei lá. Vou e troco todo o motor. Um tempo depois, furo um pneu. E outro. Acabo furando todos, depois de uns anos. Troco tudo, claro.

Até hoje ela me faz chorar, feito a ditadura.

Após um bom tempo, eu já troquei todas as peças dela. Mas eu ainda a chamo de “Minha Brasília”. Oras, ela é mesmo? Todas as partes dela são diferentes, mas eu fiz questão de serem todas originais, da mesma cor e modelo, então ela aparenta ser exatamente como era antes, mas nenhuma peça original continua ali.

Ela é uma grande mentira, feito a ditadura.

Esse é um dos grandes dilemas na Filosofia, sendo debatido desde a Grécia Antiga. Claro, os barbudos da época não falavam de carros, mas do barco de um tal de Teseu. Mas o problema é o mesmo: O que faz algo ser, bem, aquela coisa?

O seu corpo renova todas as células dele em alguns anos. Então, se as partes formam a identidade do todo, você tem, no máximo, 10 anos. Mas claro que você se lembra da sua infância, a primeira (e como você está lendo um texto sobre Filosofia, a única) namoradinha, a primeira vez que você chamou a professora de mãe sem querer (um ponto importante na formação de qualquer indivíduo saudável), enfim, fatos que aconteceram há mais tempo que dez anos.

E temos ainda o envelhecimento natural, o teu corpo não permanece o mesmo para sempre. Você cresce, ganha barba, perde cabelo, a pele fica flácida... Mas não é isso que define você, exatamente. A psique, o conjunto de seus maneirismos, lembranças, personalidade, isso é quem torna você reconhecível, diferente dos demais. É assim que vemos aquele guri da oitava série, anos depois, careca e gordo, e conseguimos reconhecê-lo.

Mas como aplicar esse conceito na História? Bem, só precisamos modificar a escala. Ao invés de falar sobre células e um corpo, podemos falar em pessoas e uma nação. Será que a Grécia de hoje é a mesma Grécia da antiguidade? Ou a Itália realmente teve um passado glorioso, quando era conhecida como Império Romano?

Não vamos começar com isso de novo, né gente.

Isso é algo menos abstrato, portanto mais fácil de ser discutido. Muitos historiadores (eu incluso) falam da história na primeira pessoa do plural. Sempre é “Nós não tínhamos o conceito de individualidade até meados do século XVIII”, e não Eles. Admito que faço isso involuntariamente, num gesto de aproximar o leitor do passado, e não como opção filosófica, mas é um bom exemplo de como nós percebemos o passado como uma continuidade, um rio que vem fluindo até desembocar no presente, mesmo que seja errado usar o nós, já que ninguém aqui viveu no século XVIII.

Tá, QUASE ninguém.

Mas não só isso, temos também a questão da identidade nacional. Num país relativamente jovem como o nosso isso não importa muito, mas em países milenares como o Egito ou a Grécia, é algo de extrema importância. Porém quanto mais tempo uma nação existe, mais vezes ela é invadida, ocupada, mesclada, modificada. Se pegássemos um filósofo grego da época de Sócrates e jogássemos na Grécia atual, ele não reconheceria aquilo como seu país (até porque gregos não tinham o conceito de país, naquela época).

Ao menos ele já sabe como é ter barba e ficar na praça sem trabalhar o dia todo.

Daí vem o problema: Não podemos deixar essa imagem de continuidade atrapalhar nossa análise histórica. Um exemplo disso são as estátuas gregas. Já sabemos que elas não eram realmente brancas, e sim coloridas, só que elas ficam tão feias, tão diferentes do que nós assumimos que seria a estética greco-romana, o berço da civilização ocidental, que ‘omitimos’ esse detalhe, preferindo mostrar ao mundo as esculturas brancas e virginais.

César, o Grande (travesti)


Essa revisão da história acontece em vários lugares. Vemos a Idade Média como um lugar sujo e pobre, sendo que eles consumiam muito mais calorias que nós hoje. Imaginamos os vikings como bárbaros cruéis, mas eles foram um dos primeiros a criar leis contra o abuso sexual, e a tratar mulheres como pessoas. E isso não é só no imaginário popular, não. Há professores, e até historiadores, que ainda acreditam nessas versões, comprovadamente falsas, e ajudando a manter esses mitos vivos na mente da nova geração, perpetuando a falsa História, e obscurecendo cada vez mais a nossa visão dos fatos.

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