Vocês, leitores, assim como eu, já devem ter visto a
seguinte imagem, no feed do seu
Facebook:
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| "E é por isso que pão em francês é pain, representando a dor da Revolução [carece de fontes]" |
Mas até que ponto isso é verdade? A Revolução Francesa
começou mesmo pelo preço do pão? Ou melhor, há como definir exatamente quando
começa uma revolução? “Sim, quando o povo vai a rua, bradando, com armas!”
alguém irá dizer. Mas isso não seria somente o ápice de toda uma sequência de
problemas, desordens, infelicidades?
Primeiramente, devemos definir o que é uma Revolução. Não é
algo fácil, acreditem, pois todo conceito histórico é amplamente debatido
(visto que é difícil usar uma palavra pra descrever perfeitamente movimentos
sociais franceses, indianos, chineses e congoleses, por exemplo). O conceito
mais aceito é que uma revolução é qualquer agitação social onde um sistema
político é deposto pela massa popular e substituído por outro.
É amplo demais, e tenho certeza que um ou outro historiador
não vai concordar totalmente, mas para o argumento desse texto, vai servir. Agora
podemos voltar a pergunta inicial: Quando começa uma revolução?
No caso da França, os descontentamentos começam bem antes do
preço do pão subir. Em 1787 temos a Assembleia dos Notáveis, uma reunião de
clérigos e nobres, escolhidos pelo Rei, que tentariam achar uma solução para a
crise econômica francesa (que começou com o financiamento da Revolução
Americana, mas isso é assunto pra outra hora). Oras, eles, logicamente, se
recusaram a pagar mais impostos, deixando o pato (ou, devido aos cortes
financeiros, o frango de padaria) nas mãos do terceiro estado, também conhecido
como Le Povón, em francês.
Obviamente essa não foi a única causa do aumento do pão, ou
mesmo da insatisfação popular. Não havia Twitter, ninguém pobre ficou sabendo
dessa Assembleia. Mas foi um fato importante: A própria nobreza recusou a
solução do rei, juntamente com o clero. “Uai,
mas eles não são os rivais, os caras maus da história?” Não, na história
não temos caras maus, uma parte do primeiro e do segundo estado apoiou o povo,
na verdade. Só pararam quando o Trio Calafrio (Robespierre, Danton e Marat)
decidiram cortar a cabeça de todo mundo.
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| O YouTube do século XVIII |
Temos ainda o frio extremo que fez na França, nos anos
anteriores, o fluxo migratório do campo para a cidade (já que eles não tinham o
que colher ou plantar), e a consequente falta de empregos, o que abaixou o
salário médio (se tem muita gente querendo a sua vaga, tu não pode reclamar
quando o patrão abaixa teu salário; melhor ganhar menos do que ganhar nada).
Tudo isso aconteceu antes de 1789, data ‘oficial’ da Revolução Francesa.
Não podemos definir uma data para movimentos ou mudanças
sociais. Na História, nada é tão simples quanto três ou quatro causas, bem
explanadas e sem complicação. Esse é o erro de muita gente, analisar o momento
histórico como se fosse um livro, com começo meio e fim bem definidos e
bonitinhos.
A Revolução Francesa, assim como os manifestos ocorrendo
hoje no Brasil, não começou por causa do preço do pão, ou por vinte centavos.
Se fosse só isso, ninguém iria para a rua reclamar. São causas maiores, muito
maiores, que transcendem o velho discurso marxista de oprimidos contra
opressores. São batalhas de interesses, onde não temos somente classes, rótulos
vazios, mas pessoas, que vão desde pequenos burgueses até o camponês
analfabeto.
Quando estudamos a História, não podemos nos prender a essas
definições. Não há um ‘time do bem’ e um ‘time do mal’, mas sim opiniões
diferentes. Há quem defenda o aumento de vinte centavos, há quem seja contra,
mas nenhum dos dois está certo, pois não há uma verdade, do ponto de vista do
historiador.


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