sexta-feira, 21 de junho de 2013

Revolução é um modo de preparo, e não uma receita

 Vocês, leitores, assim como eu, já devem ter visto a seguinte imagem, no feed do seu Facebook:

"E é por isso que pão em francês é pain, representando a dor da Revolução [carece de fontes]"

 Mas até que ponto isso é verdade? A Revolução Francesa começou mesmo pelo preço do pão? Ou melhor, há como definir exatamente quando começa uma revolução? “Sim, quando o povo vai a rua, bradando, com armas!” alguém irá dizer. Mas isso não seria somente o ápice de toda uma sequência de problemas, desordens, infelicidades?

 Primeiramente, devemos definir o que é uma Revolução. Não é algo fácil, acreditem, pois todo conceito histórico é amplamente debatido (visto que é difícil usar uma palavra pra descrever perfeitamente movimentos sociais franceses, indianos, chineses e congoleses, por exemplo). O conceito mais aceito é que uma revolução é qualquer agitação social onde um sistema político é deposto pela massa popular e substituído por outro.

 É amplo demais, e tenho certeza que um ou outro historiador não vai concordar totalmente, mas para o argumento desse texto, vai servir. Agora podemos voltar a pergunta inicial: Quando começa uma revolução?
No caso da França, os descontentamentos começam bem antes do preço do pão subir. Em 1787 temos a Assembleia dos Notáveis, uma reunião de clérigos e nobres, escolhidos pelo Rei, que tentariam achar uma solução para a crise econômica francesa (que começou com o financiamento da Revolução Americana, mas isso é assunto pra outra hora). Oras, eles, logicamente, se recusaram a pagar mais impostos, deixando o pato (ou, devido aos cortes financeiros, o frango de padaria) nas mãos do terceiro estado, também conhecido como Le Povón, em francês.

 Obviamente essa não foi a única causa do aumento do pão, ou mesmo da insatisfação popular. Não havia Twitter, ninguém pobre ficou sabendo dessa Assembleia. Mas foi um fato importante: A própria nobreza recusou a solução do rei, juntamente com o clero. “Uai, mas eles não são os rivais, os caras maus da história?” Não, na história não temos caras maus, uma parte do primeiro e do segundo estado apoiou o povo, na verdade. Só pararam quando o Trio Calafrio (Robespierre, Danton e Marat) decidiram cortar a cabeça de todo mundo.

O YouTube do século XVIII

 Temos ainda o frio extremo que fez na França, nos anos anteriores, o fluxo migratório do campo para a cidade (já que eles não tinham o que colher ou plantar), e a consequente falta de empregos, o que abaixou o salário médio (se tem muita gente querendo a sua vaga, tu não pode reclamar quando o patrão abaixa teu salário; melhor ganhar menos do que ganhar nada). Tudo isso aconteceu antes de 1789, data ‘oficial’ da Revolução Francesa.

 Não podemos definir uma data para movimentos ou mudanças sociais. Na História, nada é tão simples quanto três ou quatro causas, bem explanadas e sem complicação. Esse é o erro de muita gente, analisar o momento histórico como se fosse um livro, com começo meio e fim bem definidos e bonitinhos.

A Revolução Francesa, assim como os manifestos ocorrendo hoje no Brasil, não começou por causa do preço do pão, ou por vinte centavos. Se fosse só isso, ninguém iria para a rua reclamar. São causas maiores, muito maiores, que transcendem o velho discurso marxista de oprimidos contra opressores. São batalhas de interesses, onde não temos somente classes, rótulos vazios, mas pessoas, que vão desde pequenos burgueses até o camponês analfabeto.

 Quando estudamos a História, não podemos nos prender a essas definições. Não há um ‘time do bem’ e um ‘time do mal’, mas sim opiniões diferentes. Há quem defenda o aumento de vinte centavos, há quem seja contra, mas nenhum dos dois está certo, pois não há uma verdade, do ponto de vista do historiador. 

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