Especial de final de semana: sopa de objetivos.
As
declarações recentes de Pelé e Ronaldo sobre a Copa das Confederações e a Copa
do Mundo nos deixaram bastante surpresos, dada a coragem de suas palavras em
pleno tempo de manifestações. Sua visão perspicaz dos fatos através de uma
profunda análise metodológica e epistemológica me deixa sinceramente surpreso que eles sejam mais conhecidos como jogadores de futebol do que como
sociólogos.
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“A análise das periferias mostra que o desemprego é causado pela falta de carroças de carrapinha” , disseram em palestra. |
Piadas à parte, a declaração da presidente Dilma Rousseff nesta sexta-feira nos mostrou que
suas idéias não destoam tanto das de nossos recém-descobertos cientistas
sociais. Começando pelo final, seria engraçado se não fosse trágico a
presidente pedir, basicamente, que nos comportemos por que temos visitas, como
nossos pais pediriam - não que isso me surpreenda, dado que seu antecessor
dizia que seu governo "foi como um pai para os brasileiros". E Dilma age
exatamente como a mãe - conciliadora, supostamente moderada, que sabe dos
problemas que tem em casa, mas quando as visitas chegam ela tira do armário os
copos mais bonitos, do guarda-roupas as fronhas de algodão egípcio e pede que
nós nos comportemos à mesa.
Quero
amalgamar aqui três questões: 100% dos royalties do Pré-Sal para a educação, a
importação de profissionais da saúde e a ampliação dos gastos com saúde e
educação. Pra isso, vou chamar uma autoridade infinitamente maior do que a
minha, o venerável Milton Friedman, economista norte-americano, com sua genial
ideia para educação e saúde: o sistema de vouchers. O voucher é uma
bolsa, um subsídio, mas ele vai pra quem faz uso do serviço, não pra quem
oferece ele. Pro cara da periferia que não pode pagar o hospital, e não pro
hospital, ou ainda pra mulher que quer comprar uma
calça para uma jovem de dezesseis anos, que é mais de trezentos
reais. Ainda vou escrever aqui especificamente sobre educação, mas,
basicamente, o que Milton Friedman entendeu e que a presidente muito bem sabe é
que o governo não tem recursos para manter hospitais, comprar material
hospitalar e ainda pagar os médicos, então o melhor é deixar isso na mão dos
empresários e dar à população condições de pagar o serviço médico propriamente
dito, e o hospital que arque com o resto dos custos.
O mesmo sistema se aplicaria à educação, mas aqui, no
Brasil, é mais delicado. O nosso problema não é quanto se investe, e sim como
se investe. O problema, mais do que o salário dos professores e a condição das
escolas, é o currículo dos alunos. Enquanto nos Tigres Asiáticos ou nos Estados
Unidos o ensino é predominantemente técnico, científico, focado no ensino da
Física e da Matemática, no Brasil se insiste da ideia de se formar cidadãos
críticos – algo tremendamente complexo e delicado. Ainda assim, é isso que o
Ministério da Educação nos oferece. Uma pessoa crítica e consciente é realmente
necessária, mas isso, assim como educação, vem de casa. O MEC insiste que tudo
tem que ser ensinado nas escolas hoje, e acaba que se sai delas sem nenhuma
capacidade útil pro mercado de trabalho. Pra quem tem condições de fazer um
curso superior depois isso não é problema, mas pra maioria é. Tão logo quanto
isso fica claro, acontece a evasão escolar – e não é de se condenar, pois se a
escola não tá adicionando nada à tua vida, não tem por que ficar lá.
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| Tigres Asiáticos. [Carece de fontes] |
Por
último, o jogo de palavras e o jogo de contas de Dilma. Ela falou do aumento
dos gastos com educação e saúde, mas é essencial aqui uma diferenciação: gasto
e investimento são coisas bem diferentes. Gasto é salário, é folha de
pagamento. Investimento é construir escolas, hospitais, pontes, estradas –
investimento é o mais importante. No caso da educação gastar é legal mesmo,
professor ganha mal. No caso da saúde, o mais importante é o investimento.
Antes de faltar médico, falta leito, falta equipamento, falta estrutura, quartos,
falta muita coisa, e um médico sem ferramentas é impotente.
O pronunciamento da presidente
mostra a tendência de sempre, de falar o que a maioria quer ouvir. Minha
intenção é mostrar que nós precisamos tornar o Brasil melhor pra quem vive
aqui, tanto pro educador e médico quanto pra quem tem baixa renda. E é por isso
que não precisa dos médicos estrangeiros: é só dar motivo pros daqui quererem
trabalhar no SUS – afinal, da mesma maneira que um pedreiro não vai pra uma
obra sem cimento e um motorista de caminhão não vai pra uma empresa sem
veículos, um professor não quer trabalhar em uma escola sem giz e um médico não vai para um hospital que sequer tem um
estetoscópio. Mais importante, se ouvirmos a lição de Milton Friedman, nossas crianças não irão à escolas sem utilidade e nossos idosos não chegarão aos hospitais sem vida.


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