sábado, 22 de junho de 2013

Prato da verdade com sugestões em isca

           Especial de final de semana: sopa de objetivos.
       As declarações recentes de Pelé e Ronaldo sobre a Copa das Confederações e a Copa do Mundo nos deixaram bastante surpresos, dada a coragem de suas palavras em pleno tempo de manifestações. Sua visão perspicaz dos fatos através de uma profunda análise metodológica e epistemológica me deixa sinceramente surpreso que eles sejam mais conhecidos como jogadores de futebol do que como sociólogos.
“A análise das periferias mostra que o desemprego é causado pela falta de carroças de carrapinha” , disseram em palestra. 
      Piadas à parte, a declaração da presidente Dilma Rousseff nesta sexta-feira nos mostrou que suas idéias não destoam tanto das de nossos recém-descobertos cientistas sociais. Começando pelo final, seria engraçado se não fosse trágico a presidente pedir, basicamente, que nos comportemos por que temos visitas, como nossos pais pediriam - não que isso me surpreenda, dado que seu antecessor dizia que seu governo "foi como um pai para os brasileiros". E Dilma age exatamente como a mãe - conciliadora, supostamente moderada, que sabe dos problemas que tem em casa, mas quando as visitas chegam ela tira do armário os copos mais bonitos, do guarda-roupas as fronhas de algodão egípcio e pede que nós nos comportemos à mesa.
       Quero amalgamar aqui três questões: 100% dos royalties do Pré-Sal para a educação, a importação de profissionais da saúde e a ampliação dos gastos com saúde e educação. Pra isso, vou chamar uma autoridade infinitamente maior do que a minha, o venerável Milton Friedman, economista norte-americano, com sua genial ideia para educação e saúde: o sistema de vouchers. O voucher é uma bolsa, um subsídio, mas ele vai pra quem faz uso do serviço, não pra quem oferece ele. Pro cara da periferia que não pode pagar o hospital, e não pro hospital, ou ainda pra mulher que quer comprar uma calça para uma jovem de dezesseis anos, que é mais de trezentos reais. Ainda vou escrever aqui especificamente sobre educação, mas, basicamente, o que Milton Friedman entendeu e que a presidente muito bem sabe é que o governo não tem recursos para manter hospitais, comprar material hospitalar e ainda pagar os médicos, então o melhor é deixar isso na mão dos empresários e dar à população condições de pagar o serviço médico propriamente dito, e o hospital que arque com o resto dos custos.
O mesmo sistema se aplicaria à educação, mas aqui, no Brasil, é mais delicado. O nosso problema não é quanto se investe, e sim como se investe. O problema, mais do que o salário dos professores e a condição das escolas, é o currículo dos alunos. Enquanto nos Tigres Asiáticos ou nos Estados Unidos o ensino é predominantemente técnico, científico, focado no ensino da Física e da Matemática, no Brasil se insiste da ideia de se formar cidadãos críticos – algo tremendamente complexo e delicado. Ainda assim, é isso que o Ministério da Educação nos oferece. Uma pessoa crítica e consciente é realmente necessária, mas isso, assim como educação, vem de casa. O MEC insiste que tudo tem que ser ensinado nas escolas hoje, e acaba que se sai delas sem nenhuma capacidade útil pro mercado de trabalho. Pra quem tem condições de fazer um curso superior depois isso não é problema, mas pra maioria é. Tão logo quanto isso fica claro, acontece a evasão escolar – e não é de se condenar, pois se a escola não tá adicionando nada à tua vida, não tem por que ficar lá.
Tigres Asiáticos. [Carece de fontes]

      Por último, o jogo de palavras e o jogo de contas de Dilma. Ela falou do aumento dos gastos com educação e saúde, mas é essencial aqui uma diferenciação: gasto e investimento são coisas bem diferentes. Gasto é salário, é folha de pagamento. Investimento é construir escolas, hospitais, pontes, estradas – investimento é o mais importante. No caso da educação gastar é legal mesmo, professor ganha mal. No caso da saúde, o mais importante é o investimento. Antes de faltar médico, falta leito, falta equipamento, falta estrutura, quartos, falta muita coisa, e um médico sem ferramentas é impotente. 
      O pronunciamento da presidente mostra a tendência de sempre, de falar o que a maioria quer ouvir. Minha intenção é mostrar que nós precisamos tornar o Brasil melhor pra quem vive aqui, tanto pro educador e médico quanto pra quem tem baixa renda. E é por isso que não precisa dos médicos estrangeiros: é só dar motivo pros daqui quererem trabalhar no SUS – afinal, da mesma maneira que um pedreiro não vai pra uma obra sem cimento e um motorista de caminhão não vai pra uma empresa sem veículos, um professor não quer trabalhar em uma escola sem giz e um médico não vai para um hospital que sequer tem um estetoscópio. Mais importante, se ouvirmos a lição de Milton Friedman, nossas crianças não irão à escolas sem utilidade e nossos idosos não chegarão aos hospitais sem vida.


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