Quando fui acordado, na minha cela, por pessoas entusiasmadas que gritavam "Acorda, velho! Constantinopla caiu!", eu não fazia a mínima idéia de que, em algum tempo, me uniria a essa trupe que gosta de temperar carne de panela com filosofia. Então, aqui estou. Com meus amiguinhos de culinária e coração. Estudando culinária e devorando o coração dos inimigos mais fracos.
Pra alegria de uns e a náusea de outros, meu primeiro post aborda as marchas que estão ocorrendo em todo o território nacional. Sim, o comportamento da sociedade na mídia é bem previsível, mas assuntos atuais sempre necessitam de dados relevantes. Não quero fazer uma apresentação imparcial dos fatos para informar o leitor, quero esclarecer minha relação com esse caótico movimento e as pessoas que o constituem.
Existe um grande e desconfortável motivo para eu detestar tentar discutir política: a horrenda cabeça fechada que as pessoas mantêm frente ao pensamento lógico e a facilidade com que elas se apegam a frases e ideais bonitinhos sem antes questioná-los. Eu não estou falando de um grupo específico, ou um partido. A situação é muito pior. Tem gente assim pra todo lado.
Você pode lutar pela felicidade de todas as pessoas, você pode lutar pela liberdade de uma pessoa ser quem ela é e fazer o que ela ama, você pode lutar pela atenção que o Estado tem que dar a todas as minorias, porém nada disso parece importar. Estar disposto a criticar O Manifesto Comunista, a Constituição ou a Bíblia (obras igualmente adoradas por grupos ideologicamente diversos) é o suficiente para que você seja execrado por todos. É como se você estivesse no meio de uma briga entre duas pessoas psicóticas que gritam uma com a outra e com você ao mesmo tempo. Fora que, geralmente, você está sozinho. Por isso, quando perceber que não vale a pena o esforço para raciocinar com duas pessoas alucinadas pela fúria, você vai ser taxado de omisso.
Eu queria mesmo era ir pra Marte pra ficar longe dessa praga
chamada ser humano.
O pior disso é que esses fanáticos, esquecendo que todos somos seres humanos originados a partir da mesma fórmula de processos psíquicos e fisiológicos, nem percebem que você está do lado deles, lutando por eles. Os poucos que questionam as condições do tempo e espaço presentes raramente indagam, a respeito disso, o quê fazer, como o fazer e por quê o fazer. A visão que a maioria dessas pessoas têm é tão estreita e rasa, que eu seriamente acharia razoável aposentá-las por invalidez intelectual. Se isso acontecesse, provavelmente grande parte das moradias do país poderia ser convertida em asilos psiquiátricos.
Raciocinar independentemente é o que eu considero a maior virtude de um indivíduo. Mais importante do que perseguir um ideal é poder pensar por si próprio. Enxergar pessoas lutando com tanta paixão por idéias insensatas faz-me lamentar sob o pensamento de que, com mais razão, qualquer problema social seria resolvido facilmente. As pessoas têm desejo de que as coisas mudem pra melhor, porém são incapazes de pensar no que é "melhor".
É nessa confusão, que cresce com crises políticas, em que estamos. Sofrem os que pensam, como de praxe. Uma luta entre dois extremos tão afastados que fica difícil dizer qual é qual. Uma luta em que, se um dos extremos ganha, todos perdem.


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