sexta-feira, 21 de junho de 2013

Manifestação ao molho de êxtase

Prato do dia: anomia.

                A mitologia grega conta que o titã Atlas, após a Titanomaquia, foi castigado a carregar sobre os ombros o Firmamento. A mitologia tupiniquim, por sua vez, fala do titânide classe média que foi condenada a levar nas costas os céus, a terra, Brasília e esporadicamente balas de borracha. Sua guerra se chama cotidiano, declarada pela máquina pública, que a ataca com inflação, imposto de renda e colunas da Marilena Chauí.
                Comparações à parte, os eventos recentes – manifestações, protestos, vandalismo, repressão – me deixam receoso e é um assunto que é difícil escapar, mesmo sendo uma primeira postagem. Porém, ao invés de tratar disso, eu quero falar dos vinte centavos, mesmo sabendo que alguém certamente pensará “Não são mais vinte centavos! Ignorante! Papagaio do Arnaldo Jabor!” Eu sei que não, mas eu acho que o desfecho da “conquista” que os manifestantes tiveram em São Paulo dá um gosto do que há por vir – um sabor de fel.
                No início do movimento Passe Livre o Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, disse em entrevista de maneira bastante sincera e direta que “não existe almoço grátis” e que “passe livre é cretinice”. Concordo com ele, ainda que discorde das palavras usadas, e como ele bem disse, se a tarifa não aumentasse, a Prefeitura teria que bancar a diferença. Sobre a tarifa, não cabe a mim dizer se ela é justa ou injusta – isso é juízo de valor, o que não me interessa – mas o aumento é justificado por apenas compensar a inflação do ano passado, sendo que mesmo sem dados é cabível assumir que o custo operacional das empresas tenha subido consideravelmente por causa do aumento expressivo no preço do diesel. Diante do “não” de Haddad a resposta dos manifestantes foi tentar ganhar no grito dos argumentos mais que convincentes da Prefeitura porque, claro, dane-se o Estado de Direito, dane-se o Império da Lei.
                A diferença básica entre o preço da passagem e o de outros bens e serviços é que ele é tabelado, por isso não flutua e quando ela aumenta é mais fácil dizer “opa! Inflação”. A vitória sobre a decisão do aumento da tarifa (a vitória da força sobre a razão, se me perguntarem) foi bastante celebrada e eu tive a impressão de que os manifestantes, no êxtase “democrático” e da “conquista popular”, ignoraram a declaração tanto do Prefeito quanto do Governador do Estado de São Paulo: a tarifa se mantém, mas nós cortaremos o investimento na periferia pra tapar o buraco no orçamento nas empresas de transporte. Se foi cretinice, retaliação, revanchismo, isso não importa. Acho que faz sentido. Isso foi, sim, um tiro no pé. Os paulistas não vão ter que desembolsar (diretamente, diga-se) o aumento da passagem, mas sim os impostos coletados de gente tão rica quando o Paulo Maluf e tão humilde quanto o morador da periferia – que teve as melhorias na sua região cortadas por causa disso.
                Isso, aos meus olhos, é uma prévia do que há por vir. Querem mudar o Brasil de tudo quanto é jeito, exigem, gritam e esperneiam como uma criança – e um pai que cede no primeiro grito de seu filho só vai torná-lo mais exigente e teimoso e vai ser cada vez menos respeitado. Essa história toda nos remete de novo à estória de Atlas, dessa vez voltando com as maçãs de ouro dos jardins de Hera achando que enganaria Héracles para ser livre de sua condenação. E logo o nosso Héracles, o Estado, fará conosco o mesmo  que fez com Atlas: pedirá para seguremos um pouco o céu para que arrume sua túnica, tomará consigo as maçãs que lutamos para pegar e sairá correndo, nos deixando onde sempre estivemos.

Um comentário:

  1. aff o cara vai bem d boa procura reseita de macarraõ e aparesse um bloge sem graça com umass palavra difissio afffff

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